| Doença dos Pezinhos, uma herança portuguesa |
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| Escrito por Mundo Lusiada |
| Quarta, 02 Junho 2010 02:11 |
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Em entrevista ao Mundo Lusíada, a doutora especialista Eloiza Quintela falou da doença típica da região de Povoa de Varzim. Existem diversos estudos sobre a origem desta doença na região portuguesa, que com a imigração de portugueses, foram aparecendo colônias em alguns países. Por Mundo Lusíada A Polineuropatia Amiloidótica Familiar (PAF), ou paramiloidose familiar, é uma doença neurológica rara e hereditária, ainda sem cura. Conhecida popularmente como "doença dos pezinhos", ela provoca a degeneração celular e é mais comum entre descendentes de famílias portuguesas. A doença atinge muitos moradores da região litorânea, e tem origem em Póvoa de Varzim e Vila do Conde, em Portugal, o maior foco de PAF no mundo. O Mundo Lusíada foi ouvir a doutora Eloiza Quintela, gastroenterologista e hepatologista especialista no Tratamento de Doenças do Fígado no Hospital Albert Einstein (SP), cirurgiã de Transplantes de Fígado, e membro da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. “Trata-se de um erro genético, o fígado deixa de funcionar corretamente. Se fosse um computador, seria como dar erro na placa-mãe” diz a doutora. É a substância amilóide no sangue que vai impregnando nos nervos. Os nervos endurecem e assim começam as manifestações da doença. Pés e mãos perdem a sensibilidade térmica, sofrendo graves queimaduras. Seguem-se problemas cardíacos e intestinais, enfraquecimento físico geral, um processo que afeta todo o sistema nervoso periférico. Origem em Portugal No Brasil, a maior concentração já encontrada pela equipe concentrava-se em Manaus, Recife, Natal, Bahia e até a região serrana do Rio de Janeiro, onde existe uma forte presença da colonização portuguesa, em cidades como Petrópolis e Teresópolis. “Na Bahia nós achamos um celeiro, com cerca de 15 pacientes. Existem ninhos no país. Em Itajubá, cidade de Minas próxima a região serrana do Rio, também encontramos casos”. Em São Paulo, dentre os diversos casos, muitos são de pessoas que migram para a capital para realizar um tratamento adequado. “Nós temos na equipe uma família inteira portadora. Apenas uma irmã era negativa para a doença, então ela doou metade do fígado para o irmão, e conseguiu ajudar pelo menos um familiar. É uma história bonita no meio disso tudo”. A doença não tem cura, o único tratamento eficaz é o transplante do fígado, já que o erro do organismo está no órgão. Todos os pacientes em tratamento estão matriculados na fila de transplante. Mas ao ser feita a cirurgia, o fígado que contem o “erro” não é jogado fora, explica a doutora. “Nós doamos este fígado com erro para pessoas, com câncer de fígado, da terceira idade. Porque como a doença é lenta e passaria mais de 20 anos até o aparecimento de sintomas, um paciente de 65 anos, por exemplo, não viverá para desenvolver esta doença. Nós reaproveitamos este fígado, é o que chamamos de transplante dominó”. Transmissão De acordo com a ela, a doença tem mais de 50% de chance de ser transmitida às outras gerações. “Um casal que tem quatro filhos, apenas um não vai ter a doença, porque ela é predominante”. Diagnóstico Segundo a doutora, é muito importante prestar atenção no histórico da família. Existem muitos pacientes que perdem a sensibilidade das mãos e sofrerem diversas queimaduras, pois não sentem a dor. “Existem também pessoas que vivem arrastando o pé. As vezes, são casos que vão parar no neurologista, pois acham que é por uso de álcool. É difícil fazer este diagnóstico”. Os métodos mais importantes para o diagnóstico são histórico familiar, tecnologia do DNA e uma biópsia de nervo sural ou intestinal. Os testes de DNA (Dosagem de TTR-MET30) indicam o potencial para desenvolver a doença. Nas análises é possível avaliar a presença da proteína anormal, indicando se a doença está ativa. Antes mesmo do seu aparecimento, é possível confirmar o "tipo" específico da variação da amiloidose familiar. Esperanças e novos tratamentos No país, já existem também casais portugueses que evitam a transmissão. Eles recorrem a uma técnica de procriação medicamente assistida para que os seus filhos nasçam sem a PAF. É um método de diagnóstico pré-natal, “Diagnóstico Genético Pré-Implantação”, utilizado por casais com um elevado risco de transmissão de uma doença genética. Há em Portugal vários casos de sucesso em que os pais recorreram à fertilização in vitro para que os filhos não tivessem a doença. O mesmo método também é realizado no Brasil. Existe ainda um medicamento novo sendo testado a nível mundial, em Portugal está em testes nos hospitais de Santo António (Porto) e Santa Maria (Lisboa), de acordo com o Portal Alert Saúde. No ano passado, a Associação Portuguesa da Paramiloidose, com demais signatários, elaborou uma petição solicitando que seja instituído o Dia Nacional da Luta Contra a Paramiloidose em Portugal. Segundo dados da imprensa especializada, há mais de 500 famílias afetadas e cerca de 2,5 mil pessoas com sintomas da paramiloidose familiar em Portugal. Para a Dra. Eloisa Quintela, porém, na prática este número é muito maior. No Brasil, já houve mais de cem casos da doença. Apenas o grupo da doutora Quintela já realizou mais de 60 operações. E ainda há muitas pessoas que morrem por conta da doença dos pezinhos. “Existe muita gente que falece disso, por falta de informação e por falta de tratamento adequado”. |